(FOLHAPRESS) – Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) encontrou fentanila, substância conhecida nas ruas como fentanil, na saliva de usuários de maconha sintética. O opioide, responsável por uma epidemia de dependência nos Estados Unidos, é mais potente que a morfina e pode causar overdose rapidamente.
A pesquisa revela a circulação de fentanil em drogas que, em tese, não possuem a substância em sua composição. O resultado é preocupante devido ao alto risco à saúde de quem as consome e representa um alerta para as autoridades de saúde.
A análise foi feita com 65 usuários de canabinoides sintéticos, conhecidos como drogas K, a partir da coleta de saliva. Nenhum dos indivíduos que declararam ter usado a droga relatou o consumo de opioides. Ou seja, os resultados sugerem que a exposição ocorreu de maneira involuntária e sem o conhecimento dos usuários. Em caso de consumo de uma quantidade elevada, há risco de morte por depressão respiratória.
As amostras foram coletadas em três serviços de saúde da capital paulista, um na zona sul e dois na zona leste. Dos 65 participantes, 21 (32%) testaram positivo para fentanil.
O estudo revela um perfil marcado, majoritariamente, pela vulnerabilidade social e pelo uso prolongado da maconha sintética. A maioria dos que testaram positivo era formada por homens em situação de rua e com baixa escolaridade. A mediana de idade era de 23 anos, com presença significativa de jovens entre os consumidores da droga.
Há uma característica considerada curiosa pelos pesquisadores. Todos os usuários com resultado positivo para fentanil relataram não ter consumido maconha, cocaína ou álcool nos quatro dias anteriores à avaliação. Esse achado sugere que a exposição ao fentanil pode estar concentrada em redes e cadeias de fornecimento específicas de canabinoides sintéticos.
A pesquisadora Ligia Goes Endo, autora da análise, afirma que a circulação de fentanil em drogas consideradas “de rua” eleva o risco de uma epidemia semelhante à dos Estados Unidos, onde o opioide é frequentemente associado ao consumo de drogas ilícitas.
“Fentanila é um opioide muito potente, com alta restrição, usado no contexto hospitalar. No centro cirúrgico ela causa uma depressão respiratória programada, com dosagem controlada, para um fim específico. Imagine um usuário usando isso de forma descontrolada na rua, sem noção de dosagem. Ele corre risco elevado de morte”, afirma.
Essa é a primeira vez que o opioide é encontrado com base em um rastreamento com esse foco. Em outras análises, testes realizados em drogas apreendidas mostraram a presença de fentanila em maconha sintética, mas não havia evidências obtidas diretamente de usuários nas ruas.
O risco é agravado pela facilidade de acesso à droga, que, em algumas situações, chega a ser mais barata que o crack.
Os pesquisadores ouviram relatos de usuários que, depois de começarem a consumir K9, passaram a utilizá-la como droga principal. Alguns relataram ter migrado para a maconha sintética devido à abstinência causada pelo uso de opioides. Outros disseram consumir crack apenas quando não encontram K9.
“Essas drogas K tem o efeito similar ao da maconha, mas importante destacar que elas não são canabinoides. A comparação se dá exclusivamente porque atingem o mesmo receptor, mas o efeito é extremamente potencializado. É uma redução brusca da atividade cerebral”, explica.
Usuários relataram pagar entre R$ 2 e R$ 5 pela droga, dependendo da porção. Alguns disseram pagar R$ 1 por uma quantidade suficiente para fazer dois cigarros. Trata-se de uma combinação atraente para o tráfico, que oferece uma droga com alto potencial de dependência por um preço menor.
Quais são os riscos do fentanil?
O consumo não médico de fentanil oferece alto risco de intoxicação e morte por overdose, mesmo em pequenas quantidades.
A substância pode deprimir o sistema nervoso central e comprometer a respiração, levando à perda de consciência e, posteriormente, à insuficiência respiratória.
O risco é ainda maior quando o opioide é misturado a outras substâncias, como álcool, benzodiazepínicos ou outros opioides, ou quando é consumido sem que a pessoa conheça sua composição e concentração.
O uso repetido também pode levar à dependência. A interrupção do consumo, após o desenvolvimento de dependência física, pode provocar sintomas de abstinência.
A pesquisa da USP, segundo Ligia, pretende mapear a circulação do opioide por São Paulo e deverá analisar usuários de outras regiões da cidade, inclusive do centro, onde há grandes concentrações de pessoas que usam drogas.
Em 2023, os Estados Unidos enfrentaram uma onda de overdoses por fentanil que chegou a provocar cerca de 300 mortes por dia. Os números caíram desde então, embora ainda não haja consenso sobre todos os fatores que contribuíram para essa redução.
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